domingo, 11 de abril de 2010

A garota do metrô - Final




Andrea estava de pé, em cima do telhado de uma velha casa. Chorava desesperadamente, e a maquiagem que escorria de seus olhos, transformava aquela bela face num misto de filme de terror com uma tela de Dali. A garota arremessava ferozmente DVDs nos transeuntes que passavam pela rua. Na calçada, Renato gritava e implorava para que Andrea não pulasse. O jovem levantou as mãos para chamar a atenção da moça, quando notou que seus braços estavam cobertos de cicatrizes e feridas abertas. Notou também, que suas mãos estavam delicadas e finas, e suas unhas estavam pintadas com um tipo de esmalte de cor rosê. Renato estava com mãos de mulher. Através de uma poça d’água no asfalto, viu seu reflexo: Sua testa também estava cheia de cicatrizes. Ouviu um grito, e viu o corpo de Andrea batendo secamente num gramado tão verde que fez suas vistas arderem. Ele acordou. Tinha o corpo trêmulo e suado. Desde que descobriu que, talvez, Andrea se mataria após assistir os mil e um filmes, não tinha conseguido ter uma boa noite de sono. Sentou-se na cama, e em seu criado mudo, observou o bilhetinho rosa sendo iluminado pela luz fraca do abajur. “Não sei se você é louco, ou extremamente romântico,” – era o que Andrea havia escrito, numa letra tipicamente feminina.
Renato não conseguiu mais dormir, e como faltava pouco para que a luz do sol o convidasse para mais um dia de trabalho, e mais importe, mais um bilhete, levantou-se e foi dar inicio ao seu dia.
Pegou o metrô e foi até a locadora. Aline ainda estava com cara de sono quando o rapaz chegou. Tinha o cabelo meio despenteado, e aquele mau humor matinal que algumas pessoas têm. Aline mal humorada tornava-se mais charmosa que o habitual. Convidou então Renato para tomarem um café da manhã, na padaria da esquina. O casal passou os próximos minutos conversando, e conhecendo-se. Renato falava de Andrea constantemente, e Aline por duas ou três vezes quase revelou o verdadeiro nome da garota, mas graças a um grande pedaço de pão que tinha na boca, Renato não conseguiu ouvir, nenhuma das três. Aline comia de boca aberta, pelo menos durante a manhã. A garota revelou que pela manhã não consegue pensar em muita coisa, muito menos se lembrar de fechar a boca.
Os dois voltaram para a locadora, e Renato escreveu outro bilhete, e colocou dentro da caixa de um filme de Costa-Gavras, “Z”.
Ela me perguntou como você era – falou Andrea enquanto prendia seus cabelos num rabo de cavalo alto, que revelava sua nuca com uma pequena tatuagem do famoso olho de “laranja mecânica”. E o que você disse? – indagou o rapaz segundos depois.
Disse que você era gente boa, que estava apaixonado, que era bonito... – disse ela, sem olhar para ele.
Ele não estava acostumado a receber elogios, e a melhor maneira de disfarçar o constrangimento de saber que era bonito, foi ir embora.
E nos próximos três dias, foi assim que ocorreu. Renato acordava, tomava café da manhã com Aline, a questionava sobre a reação de Andrea, ao ler cada bilhete, escrevia um novo e se mandava para o trabalho, voltando ao final do dia para saber a resposta. Andrea assistiu Zabriskie Point, Zero for Conduct e finalmente Zero Kelvin, o filme de número 1001. Todos eles com bilhetinho dentro. Aceitou, no último bilhete, o convite para jantar.
Eram duas da tarde de um sábado, quando Renato começou a se arrumar para o jantar, que estava marcado para as oito, num restaurante bacana da cidade. Como ficou pronto muito cedo, resolveu ir à locadora, agradecer Aline pela grande ajuda que ela lhe deu durante esses dias. O jovem estava realmente bem vestido, e se não fosse o nervosismo típico da juventude, qualquer um juraria que ele já era um homem feito. Andrea lhe deu dicas de como se comportar, e até ensaiou com ele uns passos de valsa, mesmo alertando-o que hoje em dia, nenhuma garota dança valsa.
Quando o ponteiro do relógio caiu sobre o sete, Renato despediu-se. Abraçou Aline com carinho, e deu-lhe um beijo na bochecha. A moça exibiu novamente o largo sorriso simpático, mas desta vez, a jovem era quem estava nervosa, e o canto dos seus lábios pareciam que queriam fechar-se. Ele nem notou, e foi ao seu encontro.
Andrea já estava na frente do restaurante esperando-o. Fumava um cigarro de filtro vermelho. Dava grandes baforadas e criava em torno de si, uma nuvem de fumaça.
Os dois sentaram-se a mesa. A timidez era grande, e quando o assunto da idéia dos bilhetes tornou-se repetitiva, o silêncio predominou. Andrea saiu para fumar um cigarro quatro vezes, deixando Renato sozinho à mesa.
Porque você assistiu a todos aqueles filmes? – Perguntou Renato, tentando mostrar desinteresse no assunto, mas estava pensando nisso a noite toda. O jovem certamente esperaria ouvir a moça lhe revelar que havia pensado em se matar, mas que agora, sua vida fazia sentido, e coisas desse tipo. Mas não foi o que ouviu. Retirando da bolsa mais um cigarro e procurando o isqueiro, Andrea lhe explicou que assistiu aos mil e um filmes, seguindo o livro, pois fazia parte do seu projeto de conclusão de curso da faculdade. Renato não ficou muito feliz em saber que Andrea jamais pensara em se matar, muito pelo contrario, decepcionou-se um pouco. Tudo seria mais bonito, se ele a salvasse da morte.
A moça levantou-se para fumar outro cigarro, quando Renato, num rompante, fez a pergunta que deveria ter feito no primeiro segundo de conversa:
Qual seu nome?- perguntou olhando-a fixamente nos olhos.
Roberta – respondeu Andrea, saindo com o cigarro já entre os lábios, que aquela altura, nem pareciam tão perfeitos assim.
Renato ficou ali, brincando com o guardanapo durante alguns segundos. Roberta? Será que existe um nome mais sem graça que Roberta?
Pagou a conta, e deixou o restaurante sem nem se despedir de Roberta. Renato a achou arrogante, prepotente e nada romântica. Não era a mesma garota por quem apaixonou-se no metrô. Sentia-se um idiota. Passou na locadora para contar a Aline o péssimo encontro que tivera, e quão péssima é a tal Roberta. Aline não estava lá, já havia acabado seu expediente.
Voltou para o pequeno apartamento onde morava, desiludido. Gustavo e Lucas estavam na sala assistindo um filme qualquer. Não quis atrapalhar o casal e foi para seu quarto.
Sonhou a noite inteira com a garota perfeita, mas agora, ela tinha um largo e contagiante sorriso simpático no rosto. Acordou de manhã com Aline em seus pensamentos. Renato teve a certeza que agora sim, estava apaixonado realmente, e por Aline. Lembrou o cheiro que ela tinha quando a abraçou na locadora, de como era bonita com cara de sono, e o fato de comer de boca aberta o encantava. Renato foi tomar seu banho, para ir à locadora e contar seus sentimentos para Aline. Sim, agora Renato tinha coragem de declarar o seu amor para a moça de sorriso simpático. Estava o tempo todo interessado em Aline, e Andrea sempre fora apenas um pretexto para conviver com a balconista da locadora.
Enquanto estava no banho, Aline estava na plataforma do metrô. Nas mãos segurava a caixa de DVD de Zero Kelvin. Ela também havia visto os mil e um filmes. Inclinou seu corpo para frente, e tombou para dentro da valeta onde ficam os trilhos. Ele borrifava seu melhor perfume para encontrá-la. Ela já sentia a rajada de vento. Ninguém conseguiu salvá-la antes dos mil e um. O trem não conseguiu frear a tempo.
sábado, 10 de abril de 2010

A garota do metrô - Parte II


O celular não precisou tocar para que Renato despertasse. Acordou espontâneamente vinte minutos antes do seu horário habitual. Tomou um banho demorado, porque o tempo o permitia. Entrou no quarto ao lado do seu, e com cautela abriu o guarda-roupas, fazendo o menor ruído possível para não acordar Gustavo, um amigo com quem morava há dois anos, e Lucas, namorado de Gustavo. Achou gozado ao assustar-se com o ronco de Lucas. Renato jamais imaginou que gays podiam roncar. Julgar-se-ia preconceituoso se tivesse falado isso em voz alta, mas como apenas pensou, achou uma divagação absolutamente normal. Todo mundo é preconceituoso em pensamentos. Escolheu uma camiseta com um ar mais moderno e a vestiu, ali mesmo.
- Essa camiseta é feminina – disse Gustavo, com uma voz gutural, e voltou a dormir instantâneamente.
Renato percebeu o quanto não compreendia de moda, muito menos do novo comportamento da sociedade moderna. Escolheu uma camiseta que fosse mais moderna que as suas, mas menos moderna que aquela que acabara de despir. Usou gel nos cabelos e saiu daquele pequeno apartamento, que ainda exalava um cheiro forte de maconha, resquícios da noite de Gustavo.
Caminhava pela rua num misto de medo e ansiedade, assim como um jovem soldado que vai à guerra defender o seu país. Renato realmente estava indo para guerra, talvez mais sangrenta que aquela que lera nos livros.
Chegando à estação do metrô, não deixou que suas pernas lhe guiassem, e sim seu coração. Desceu a escadas rolantes em direção a plataforma de Andrea. E lá ficou. A espera.
Doze minutos depois a avistou a alguns metros a sua frente. Sabia que não seria capaz, pelo menos naquele dia, de falar com ela, então apenas a observou. Os lábios de Andrea eram perfeitos, e agora que Renato podia vê-los de mais perto, encantou-se ainda mais, se é que isso era possível. O trem chegou, trazendo com ele uma rajada de vento. O garoto fechou os olhos, e entre tantos odores, reconheceu um, e teve a certeza que aquele era o perfume de Andrea. Causou-lhe uma pequena vertigem, como se fosse a primeira tragada de cigarro que se dá na vida. Algo prazeroso e diferente. Resolveu, em meio à embriaguez do momento, embarcar também. Sim, Renato resolveu segui-la.
Ela usava um vestido curto, rodado, uma pequena trança enfeitava sua cabeça do lado direito, e Renato agradeceu a maneira como ela se sentava, de pernas bem fechadas, pois não acreditava que seria capaz de ver a calcinha dela, e não esboçar nenhuma reação. Três estações adiante ela desceu, e ele foi atrás. Sentiu-se um tanto quanto psicopata, mas concluiu que ele e Andrea dariam boas risadas disso tudo assim que ele contasse pra ela, quando estivessem juntos vendo um filme qualquer, num cinema vazio.
Andrea entrou em uma vídeo locadora, ficou um tempo papeando com uma moça de sorriso muito simpático que estava do outro lado do balcão. A moça lhe entregou um livro grosso, parecia uma bíblia. Andrea o folheou, penetrou entre as prateleiras e cinco minutos depois saiu com um DVD nas mãos. Renato, na esquina, fingia que falava no celular, quando o mesmo tocou, ensurdecendo o rapaz por alguns segundos. Estava absurdamente atrasado para o trabalho. Despediu-se da garota do metrô em pensamento, e foi viver mais um dia longo e chato, sem Andrea.
Nove dias se passaram, e o ato de seguir a garota transformou-se numa prazerosa rotina para Renato. Andrea, todos os dias fazia o mesmo trajeto, e sempre passava pela locadora, papeava com a moça de sorriso simpático, folheava o grande livro, e pegava um DVD. Porém, naquela sexta-feira, Renato foi mais além. Não, o rapaz ainda não tinha coragem suficiente para trocar algumas palavras com sua mais nova obsessão, mas conseguiu reunir tamanha coragem para se aprofundar nos gostos dela, e resolveu conversar com a moça de sorriso simpático da locadora. Apresentou-se com seu nome verdadeiro, pois não conseguiu pensar num nome falso rapidamente. Fingiu estar interessado em associar-se, mas Aline, a moça de sorriso simpático, era realmente esperta demais para ser apenas uma atendente de locadora. A moça já conhecia Renato, afinal, o rapaz freqüentava a calçada do outro lado da rua ha alguns dias, e sabia do interesse dele por Andrea. Infelizmente, ela não lhe revelou o nome verdadeiro da moça do metrô, era contra o regulamento, mas achou tão romântico a atitude de Renato, que resolveu ajudá-lo. Isso é uma história de filme, disse ela, exibindo novamente aquele largo sorriso. De uma gaveta, ela retirou o grande livro, que todas as manhãs entregava a Andrea. Renato segurou o livro com as duas mãos. Se tratava de um exemplar bastante conhecido pelos amantes de cinema – “1001 filmes para se ver antes de morrer”. Aline folheou o exemplar quase até o final, e mostrou para Renato: Os filmes grifados com lápis eram os que Andrea já tinha visto. Para surpresa de Renato, Andrea já havia assistido novecentos e noventa e seis filmes, ou seja, faltavam apenas cinco filmes para a garota completar a surpreendente meta de mil e um filmes. Ao lado de cada titulo, Andrea colocava uma nota para cada filme. Notou que a garota, não era muito fã de ficção, já que havia pontuado Matrix com 6 pontos, e era uma admiradora de romances, pontuando “O guarda-costas” com 9.5.
Renato, aos poucos, foi se sentindo mais intimo de Andrea, sentia-se feliz, por conhecê-la mais intimamente. Mas, um pensamento obscuro lhe veio à mente: Porque uma pessoa segue com tanto afinco a indicações de um livro, cujo titulo é “1001 filmes para se ver antes de morrer”? Renato concluiu que, quando Andrea terminasse de ver os 1001 filmes, ou seja, daqui a cinco dias, talvez ela se mataria. Eram apenas os filmes que a mantinham viva. Não contou sua suposição para Aline, que estava realmente animada com tudo aquilo. O rapaz ficou aflito, e sabia que tinha apenas cinco dias para fazer com que Andrea se apaixonasse por ele, e desistisse da morte calculada.
Aline deu-lhe outra informação preciosa: A moça seguia com rigidez a seqüência de filmes que o autor sugeria, ou seja, dava para saber com certeza mais que absoluta, a seqüência de locação dos últimos cinco filmes que Andrea faria.
Com essa informação, Renato teve uma idéia: Dentro da caixa de cada filme deixaria um bilhete para a moça, contando como a “conheceu” e como apaixonou-e por ela. Teria um total de cinco bilhetes, em cinco dias para fazer com que Andrea crie o interesse de conhecê-lo, e no último bilhete, quando Andrea fosse finalmente devolver o DVD, ele a convidaria para jantar ou algo do tipo. Aline achou a idéia extremamente romântica, Renato achou um tanto quanto covarde. Escreveu naquele mesmo momento o primeiro bilhete, e o colocou dentro da caixa de “Young Frankenstein” .
Despediu-se de Aline agradecidamente, e foi para o trabalho.
No final do dia seguinte, Renato não agüentava de ansiedade e não via a hora de chegar na locadora e ver se Andrea recebeu seu bilhete.
Aline estava na porta, a espera de Renato. Ela estava radiante, e o rapaz pela primeira vez teve a certeza de que Aline realmente estava empolgada com tudo aquilo. Com os olhos, a jovem atendente fez um sinal para que Renato entrasse. Ele se aprofundou entre as prateleiras e segundos depois saiu com “Young Frankenstein” nas mãos. Tinha o rosto corado e as mãos trêmulas. Aline soltava risadinhas abafadas como se fosse uma adolescente que acabará de ouvir que sua amiga perdera a virgindade.
Renato abriu a caixa do DVD. Por um instante o mundo parou. Um calor intenso lhe fez queimar a face. Dentro do DVD, um bilhete escrito num papel rosa. Andrea havia lhe respondido a mensagem.
terça-feira, 6 de abril de 2010

A garota do metrô - Parte I


Como era de costume, a música alta lhe fazia companhia enquanto caminhava até a estação do metrô. Renato tinha a mania de ouvir suas músicas sempre num volume muito alto. Às vezes, sentia até certo incomodo, mas era somente assim que conseguia se desligar do mundo, e pensar um pouco em si mesmo. Um dia, esqueceu seus fones no trabalho, e não pôde voltar para casa ouvindo suas canções prediletas. Até tentou pensar um pouco na sua vida, mas a conversa entre duas mulheres de meia idade acabaram lhe chamando mais a atenção. Chegou em sua casa sabendo como que se tira mancha de ferrugem da roupa. Raramente ele e deparava com algum ferro enferrujado, o que fez a conversa que ouviu parecer mais inútil do que realmente era.
O dia estava estranhamente frio embora fosse verão. Provavelmente era uma daquelas frentes frias que vem de algum lugar, em direção a outro lugar, mas que sempre passam pelas cidades, deixando uma boa parte da população doente. Uma chuva fina caia, fazendo com que as pessoas exibissem com certo orgulho seus guarda-chuvas coloridos. Renato gostava de observar o mar colorido que se formava, mas preferiria que fossem todos pretos. Se assim fosse, sentir-se-ia caminhando pelas ruas de Londres.
Entrou na estação do metrô. Já não precisava pensar qual caminho seguir. Suas pernas pareciam que tinham vida própria, e sabiam exatamente para onde levar aquele corpo desajeitado. Tudo estava da mesma forma. O hoje era realmente idêntico ao ontem, com exceção da temperatura e da camisa, que Renato, como de costume, as quartas-feiras, sempre usava camisa azul. Tudo era igual, até os olhos de Renato focarem ela.
A garota estava do outro lado da plataforma, no sentido inverso ao que Renato sempre fazia. Ela era realmente muito bonita, tinha cabelos negros, uma pele branca, parecendo feito de cera, e o modo como se vestia era uma mistura das estrelas de cinema dos anos cinqüenta com uma influência underground das grandes metrópoles. Renato hipnotizou-se. Jamais havia visto um ser tão perfeito como aquele. O frio abandonou seu corpo. O verão voltou a reinar dentro de Renato. O trem passou, uma enorme massa de pessoas se amontoou. Ele a perdeu de vista.
Renato passou o dia inteiro pensando em Andrea, nome esse, dado pelo próprio, pois se cansou de pensar nela como “a garota do metrô”. Andrea soava-lhe pomposo, bonito e atraente, assim como ela. Achou que nunca mais a veria, e no dia seguinte, quando não a encontrou novamente, teve certeza que jamais saberia o verdadeiro nome dela.
Duas semanas mais tarde, Renato esperava o trem do metrô, como de costume, seus fones de ouvido gritavam “Please, Please, Please, Let Me Get What I Want” , dos Smiths. E com essa trilha sonora, ele a avistou entre tantos. A viu pela segunda vez, mas parecia que já a tinha visto milhares de vezes, o que faz um pouco de sentido, já que Renato sonhara com Andrea algumas noites. Desta vez, ela também o viu. O trem que ela esperava chegou. Delicada, sentou-se em frente a janela, deu uma olhada no relógio, e voltou seus olhos para Renato. Sem pensar, ele sorriu, talvez de nervoso. Ela encabulou-se, e sorriu em retribuição. As portas do vagão se fecharam, e ela se foi.
Renato desceu na estação errada. Esqueceu de pegar o troco da coca que comprou, e quase foi atropelado quando atravessou a rua no farol vermelho para pedestres. Ele só pensava no dia seguinte, se iria revê-la novamente. Certeza, só tinha uma: amanhã será quarta-feira, e ele não usará azul.
sábado, 3 de abril de 2010

Coelho com batatas


Em dias muitos quentes, normalmente as pessoas sentem preguiça de fazer qualquer coisa. Talvez não sintam indisposição se a atividade for mergulhar numa piscina de água bem gelada, ou tomar um sorvete de três bolas na areia da praia. Para a infelicidade de João Paulo, não foi nenhuma dessas opções que sua mãe havia sugerido para ele naquele dia. Era um sábado realmente muito quente, tão quente que o garoto sempre muito serelepe, naquele dia estava um tanto quanto sonolento. Seus cabelos, finos e negros como carvão, grudavam em sua testa úmida, fazendo com que ele, hora ou outra, passasse a mão com agressividade nos cabelos para desgrudá-los.
João Paulo estava realmente odiando aquele passeio pelo supermercado naquele sábado. Ele sempre gostou de ir fazer compras com seus pais, mas naquele dia, estava apenas na companhia de sua mãe. O garoto adorava quando seu pai os acompanhava nas compras. Seu Valter não media esforços para fazer a felicidade do garoto. Bastava João Paulo pegar um produto qualquer e fazer sua famosa carinha de pidão, que lá estava a caixa de chocolates dentro do carrinho. Com dona Lúcia, sua mãe, as coisas eram diferentes. Ela era uma mulher rígida, advogada, séria. Apenas com um olhar era capaz de fazer João Paulo calar-se. João acreditava que sua mãe era tão brava, que até os sinais de trânsito vermelhos tinham medo dela. Sempre que o carro de sua mãe era impedido de continuar o trajeto pelo semáforo, Lúcia esbravejava um palavrão qualquer, e repentinamente o sinal tornava-se verde. João Paulo não gostava muito de sua mãe, mas como um garoto esperto que era, fingia que sentia algum carinho por ela, para que Lúcia não o cozinhasse junto com o frango e as batatas de domingo.
O supermercado estava relativamente cheio, por todos os corredores os ovos de páscoa pendurados em ganchos chamavam a atenção até dos diabéticos que compravam suas cenouras e seus brócolis. João não entendia porque as pessoas compravam ovos de páscoa no mercado. Era tão mais fácil esperar o domingo de manhã chegar, e o coelhinho levar os ovos para casa, de graça. Talvez o coelhinho não fosse na casa de todo mundo, e as pessoas compravam os ovos para não decepcionarem seus filhos, e achavam melhor enganá-los – pensou o garoto.
Estavam na fila do caixa, quando Lúcia reparou que havia se esquecido de comprar sabão em pó. Pediu então que João ficasse ali, na boca do caixa, que ela voltaria em instantes. Sumiu pelos corredores, entre ovos de páscoa, e vários pais enganadores de filhos.
João ficou ali, olhando com desprezo para aquele bolo de pessoas que brigavam por um pedaço de chocolate. Olhava para todos os lados para ver se encontrava sua mãe no meio da multidão, mas não a encontrava. Resolveu então andar até o meio das prateleiras, ir para um lugar onde tivesse a visão do carrinho, e uma visão melhor do supermercado. Caminhou até a sessão de enlatados, sempre atento, verificando se sua mãe já não voltara, porque, se uma coisa que João sabia bem era que, se Lúcia voltasse, e ele não estivesse lá, sua bunda ficaria mais quente que aquele sábado. Parou, olhou em volta, e finalmente encontrou sua mãe. Ela não o viu, estava concentrada em alguma coisa. João respirou aliviado e estava prestes a voltar para a boca do caixa, junto ao carrinho, quando notou o motivo da concentração da sua mãe. Lúcia segurava em uma das mãos um grande ovo de páscoa, e na outra um grande cartão, que outrora João já tinha visto, e sabia que era uma tabela de preços.
Atônito, João voltou para o carrinho, imaginando que estava sendo enganado o tempo todo. Não acreditava que seu pai seria capaz de mentir pra ele todo esse tempo, nesses seis longos anos de vida. Sua mãe sim, poderia mentir, afinal, era advogada, mas seu pai, não! O que mais eles escondem dele? Talvez Lúcia e Valter nem fossem seus pais verdadeiros. Talvez João Paulo tenha sido adotado, assim como Karine, sua amiga da escolinha. A cabeça do garoto estava rodando. O fato de ter descoberto a inexistência do coelhinho da páscoa daquele jeito perturbou o garoto.
Entrou no carro, a vontade de chorar era grande, mas ele queria ver até onde essa história chegaria.
Na viagem até sua casa, lembrou que ano passado, sua casa ficou cheia de pegadas de coelho, sujando todo o chão, inclusive o sofá, que na época era novo. Lúcia jamais permitiria que seu pai, Valter, sujasse o sofá novo só para manter a magia da páscoa no garoto. Só poderia ter sido um coelho mesmo, ágil e rápido o suficiente para conseguir fugir antes de ser cozido com as batatas – concluiu João.
O pobre garoto estava em duvida constante, vivendo o verdadeiro drama de Hamlet, mas em menores proporções.
Só havia uma maneira de esclarecer essa história. João decidiu que ficaria a espreita, toda a noite, e quando ouvisse o menor dos barulhos, espiaria, de cima da escada, o que acontecia na sala, e então, descobriria se seriam seus pais colocando o ovo na mesinha de centro, ou seria o verdadeiro coelhinho, de pêlo branquinho e olhos vermelhos.
Assim que todos foram dormir, João sentou-se na cama, com uma lanterna do Batman em punho, estava pronto para descobrir toda a verdade.
Após dez minutos sentado ali, o garoto adormeceu. As primeiras luzes do dia atravessavam sua cortina do Ben 10, e iluminavam com tons esverdeados o seu quarto. Um pequeno barulho o fez despertar. João acordou num rompante, um tanto quanto decepcionado consigo mesmo, por ter dormido, mas ainda tinha esperança de descobrir a verdade. O barulho se repetiu, e desta vez, João pode reconhecê-lo. Era aquele barulho típico de papel celofane, que são usados para embrulhar os ovos. João sabia: Ou descobriria toda a verdade agora, ou ficaria mais um ano vivendo à sombra daquela horrível dúvida. Correu como nunca até o inicio da escada, mas como usava meias, teve dificuldade para parar antes do primeiro degrau. Seus pequenos pés deslizaram. João não conseguiu segurar-se no corrimão e caiu. Rolou os 22 degraus da escada, que ligava os quartos a sala. Em meio à queda, viu de relance seu pai colocando o ovo sobre a mesinha.
João não acredita mais em coelhinho da páscoa, não come mais chocolate, nem sente mais as pernas.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Conto de Natal






Por mais moderninhas e descoladas que sejam, todas as garotas guardam dentro de si o velho e conhecido desejo de se casarem, terem um casal de filhos, um marido bonito e atraente, e claro, muito bem sucedido. E mesmo que digam o contrário, isso é um fato. Seja a garota que toma vinho barato na calçada da Rua Augusta na madrugada quente de São Paulo, ou aquela que acorda às sete da manhã aos domingos para assistir a primeira missa da semana.
Com Vera não era diferente. Quando criança, prendia um grande pedaço de papel higiênico na tiara e saia correndo pela rua. Imaginava-se a noivinha mais bonita do mundo, e certamente com a cauda mais branca, criativa e perfumada que poderia existir. Na pequena cidade onde fora criada, todos a conheciam como a noiva da rua 41. Esse apelido sempre a satisfez e adorava ouvir as senhoras que lavavam as calçadas gritando e acenando enquanto ela corria fazendo o papel esvoaçar, entrelaçando-se com os cabelos ruivos. Mas naquela idade, Vera não imaginava que quando não estava presente, seu apelido na realidade era “diarréia enlouquecida”. A garota cresceu, mudou de cidade, mas o desejo de criança permaneceu. O problema é que Vera não tinha um namorado há quatro anos, e a pequena noiva da rua 41, beirava os 37 anos de idade. Para uma mulher de 37 anos, não ser casada, e não ter a possibilidade de casamento nem em vista, é uma vergonha. Para ela, para família, e até para o futuro noivo. Todos sabem que, se com 40 anos a mulher ainda é solteira, algum problema ela deve ter. O estranho nisso tudo, é que Vera era extremamente normal. Nunca ouve uma mulher tão normal quanto ela. Exceto algumas excentricidades que todos possuem, como gostar de arroz queimado, ter vergonhosas crises de riso em momentos de desespero e não conseguir ver séries de números com mais de 3 dígitos e não somá-los. Detalhes a parte, ela é normal. Também não é de má aparência. Não é possível defini-la como bonita, tão pouco como feia.
Ela já havia se conformado com sua realidade, mas nessa época do ano era sempre a mais difícil. O dia dos namorados, que teoricamente era pra ser um dia péssimo, era um ótimo dia. Antes de chegar à imobiliária, onde trabalhava, ela passava pela floricultura, escolhia com cautela as flores mais bonitas, e pedia que entregassem o presente algumas horas mais tarde, no escritório. As velhas senhoras, e até as estagiárias jovenzinhas contorciam-se de inveja e de curiosidade quando viam aquele imenso buquê destinado a ela. Um caso antigo – dizia ela, com um sorriso no rosto enquanto simulava uma ligação apaixonada para algum rapaz inexistente. E voltava para casa caminhando, com as flores na mão, imaginando as pessoas que passavam por ela, e invejavam o bom gosto do apaixonado namorado que lhe dera flores. Mas em dezembro, ela sempre estava de férias, suas poucas amigas estavam com suas famílias, maridos ou namorados, e ela se via sempre sozinha, numa cidade grande, sem ninguém. A solidão era sua única companhia.
Era véspera de natal, e Vera encontrava-se sentada no sofá, perguntando-se porque insistem em todo ano, exibir aquele show cafona do Roberto Carlos na TV. Observou aquele ex-galã cantando músicas que embalaram algumas de suas noites, admirou seus cabelos grisalhos, e questionava-se se o Rei era adepto a escova progressiva, ou a boa e velha chapinha. Subitamente desejou um gole de vinho. Afinal, lá estava ela, na noite de 24 de dezembro, sem nenhum peru que pudesse comer ou comê-la. Merecia embriagar-se até que o álcool a fizesse dormir feito uma mulher amada. Vestiu uma roupa qualquer, e pelas ruas escuras e quase vazias, foi em busca de seu único e acessível prazer. Encontrou uma loja de conveniência, num posto de gasolina a duas quadras de sua casa. Foi muito mal atendida pela vendedora. Se ela tivesse em qualquer outra situação, entenderia que o mau atendimento não é uma coisa pessoal, mas que é muita sacanagem ter de trabalhar enquanto todos estão se divertindo, mas naquele dia, Vera não entendeu, e do fundo de sua alma, não queria mesmo entender. Ela adoraria ter um trabalho para fazer naquela noite, ocupar a cabeça, mas não tinha. Estava presa com ela mesma no apartamento mais triste da terra, exceto claro, o da família Richthofen.
No pequeno e precário estabelecimento não tinha vinho, então pegou duas garrafa de vodka. Antes de chegar ao caixa, Vera vingou-se da má vontade da vendedora: soltou uma das garrafas, que espatifou no chão, fazendo com que a vodka espirrasse por quase, se não todo, o local. Acho que Deus não quer que eu e meus amigos fiquemos bêbados essa noite! Vou levar uma só! – disse, sorrindo descaradamente. Pagou, e saiu da loja.
Voltava para casa em passos lentos e goles profundos. A rua estava vazia. Virou a esquina, e um carro vinha em sua direção, e quando se aproximou mais de Vera, o automóvel diminuiu a velocidade. Em dias normais, Vera já teria saído correndo, mas no natal, não teve medo. Ninguém mata ninguém no dia 24 de dezembro. Tem que ser uma pessoa bem sem vergonha na cara. O vidro do carro desceu, fazendo aquele barulho de tecnologia barata ecoar pela noite. Um rapaz bem afeiçoado disse alguma coisa, mas Vera não conseguiu ouvir. Talvez porque a vodka já estivesse fazendo efeito, ou porque o cara tenha falado baixo demais. Isso não vem ao caso. Vera caminhou em direção ao carro e inclinou-se um pouco. Entra, agora! – disse o rapaz, num tom de voz tão másculo e violento, que a mulher entrou.
- Quero dinheiro! Cartão de crédito! Celular! A gente vai dar uma volta até o banco!
Retiro o que disse anteriormente, Vera é uma mulher quase normal, digo quase, porque se fosse normal mesmo, teria feito o que o rapaz pediu, mas não foi o que fez. Como uma pessoa quase normal, Vera teve uma de suas vergonhas crises de riso nervoso. O homem achou que ela estivesse chorando no inicio, mas assim que percebeu que era riso, mandou com que ela calasse a boca. Vera deu gargalhadas! Tentava pedir desculpas, mas não conseguia. Dava muita risada. E o homem, incompreensivelmente não se irritou mais. Começou a achar graça também. Os dois riam agora. Ela, porque achava que iria morrer. Ele, porque achava que ela era louca. E passaram-se um ou dois minutos assim, até que Vera conseguiu se conter, e parou de rir. O silêncio que veio a seguir foi a coisa mais estranha que ambos já haviam sentido. Vera então, levou a garrafa de vodka até a boca, e sugou boa parte do liquido garganta abaixo.
- Tem um caixa 24 horas depois do terceiro farol, à direita. Quer vodka?
O rapaz aceitou. Assim como ela, deu uma bela tragada na bebida. Tirou do cinzeiro do carro um baseado e acendeu. O cheiro forte, e o som da brasa queimando fizeram com que Vera se desse conta do que estava acontecendo. Estando ela com 37 anos, solteira, sozinha, sem perspectiva de melhoras, pediu-lhe então para experimentar. Não posso morrer sem nunca ter fumado maconha – concluiu ela.
Duas horas depois, o rapaz ainda não conseguia achar o tal banco, e tão pouco voltar para a rua onde pegara a moça ruiva. Vera não se importava com aquilo. Sinceramente, ela tinha a certeza que aquele fora a melhor véspera de natal dos últimos anos.
O rapaz, que se chamava Jorge, estacionou o carro. Ele também estava gostando daquilo tudo. Talvez o efeito da maconha tenha amenizado toda a situação. Começara a sentir-se atraído por Vera, e Vera, naquela altura, sentia-se atraída por tudo e todos.
Quando o relógio marcou meia noite, Jorge a beijou. Um beijo longo, lento, quase apaixonado. Ela correspondeu.
Começaram a namorar, e Vera não precisava mais fingir ligações para falsos namorados. Um ano depois se casaram, fazendo com que a mulher, antes solitária, tivesse a certeza que não havia absolutamente nada de anormal com ela. Sentiu-se amada. Foi um casamento lindo. Vera estava linda. Na noite de núpcias, Jorge espalhou pelo quarto pétalas de rosas, e segurou a cabeça de sua esposa por cinco minutos dentro da hidromassagem. Jorge também era quase normal, digo quase porque, ninguém normal assaltaria alguém na noite de natal.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Madalena


Era uma noite de maio, talvez a mais fria dos últimos tempos. O vento enrubescia as bochechas das pessoas que insistiam em sair de casa, e qualquer sorriso mais avantajado poderia provocar uma rachadura nos lábios já congelados. Foi devido à intensidade do frio, que Angélica, mesmo estando num dos quartos de motel mais nojentos que já havia freqüentando, estava feliz de não estar do lado de fora. O pequeno quarto era bem precário. Um carpete marrom se estendia por todo chão, e em certos lugares, quando pisado, sentia-se a sola dos pés descalços grudando suavemente no chão. Não tinha muitas mobílias. Um criado mudo com um abajur de porcelana estava do lado de uma grande cama, que ocupava quase todo o dormitório, dando a impressão de que o cômodo era muito menor do que realmente era. Uma poltrona de estofado azul estava estrategicamente colocada num dos cantos, sentado nela, dava-se para analisar tudo o que acontecia no quarto. Era assim que Angélica se encontrava. Sentada na poltrona, ainda nua, dava longos tragos no seu cigarro, e observava aquela cena. Lá de fora, a luz do poste conseguia atravessar a janela e juntava-se com a fumaça que a moça soltava de seus pulmões, criando assim uma cortina mágica, que fez a mulher lembrar-se da nave da Xuxa, dos anos 80 . Para um produto que prejudica a saúde, o cigarro até embelezava o ambiente. Depois de um tempo, Angélica não tragava mais para suprir sua necessidade de nicotina, mas apenas para ver a fumaça densa se dissolvendo no ar, e lembrar-se na sua infância. O grande volume que estava sob a cama se movimentou, soltou alguns grunhidos e voltou a dormir. Angélica sentiu-se aliviada, não queria transar de novo. Não nos próximos trinta minutos, e não mais com aquele homem. De dentro da bolsa, retirou um pequeno frasco, e derramou o pó branco na sua coxa nua. Enrolou uma nota de dez reais, e aspirou tudo numa agilidade quase profissional. Levantou-se e foi ao banheiro. A imagem que via no espelho, não a agradava. Achou seus seios caídos demais, sua pele seca demais, e seus olhos fundos demais. A vida que estava levando nos últimos três anos era demais para aquele corpo mirrado suportar.
Fazia força para acreditar que, no fim das contas, aquele trabalho não era tão doloroso assim. Sempre que alguém a questionava, ela dizia que fazia pelo dinheiro, e também porque gostava. Para dar mais veracidade a sua versão, e sentir-se um pouco menos constrangida, contava em tom de deboche que quando criança, já fazia varias posições do kamasutra com sua Barbie e seu Ken. “Sempre gostei de sexo” – dizia antes de mudar de assunto repentinamente.
O homem acordou, e foi ao banheiro. A bunda peluda e murcha tremia feito gelatina a cada passo que ele dava. Angélica acompanhou aquele caminhar tão pesado somente com os olhos, e segurou-se para não rir do movimento engraço que o membro do senhor fazia. Teve que aspirar mais uma dose de coragem para agüentar tudo outra vez. Deitou-se na cama, e sentiu a textura do lençol. Cheirava forte a naftalina, mas em certos pontos, um perfume suave, provavelmente daquele cliente, amenizava os outros odores.
Assim que a porta do banheiro abriu, Angélica assustou-se com a visão que teve. O homem já estava vestido, e de seus olhos, lagrimas escorriam, molhando as bochechas e penetrando ao meio dos pêlos da barba grossa. Angélica percebeu no ato: Agora sua boca teria outra função, a de falar e aconselhar.
Sentaram-se na cama, e ele começou a desabafar. Contou que tinha mulher, e duas filhas. Angélica se fazia de interessada, mas estava tentando abotoar seu sutiã sem parecer deselegante. Ele tirou da carteira duas notas de cem reais, entre tantas as que tinha ali. Entregou-as a moça, e continuou falando. O homem estava com câncer, e jurou que só aceitou os serviços daquela morena, pois tinha medo de morrer sem ter realizado alguns de seus fetiches. Pediu desculpas, e desabou no choro. Nos intervalos dos fortes soluços que ele dava, dizia em tom baixinho que não queria morrer. Que amava a sua vida.
Angélica se emocionou, afinal, apesar de todos duvidarem, ela também tinha sentimentos. Vestiu-se por completo e sentou-se na poltrona, observando aquela cena triste e patética ao mesmo tempo. Percebeu que seu cliente tinha uns traços muito parecidos com o do seu falecido pai, e se parabenizou mentalmente por não ter tido essa percepção no começo da noite. Isso teria sido muito difícil pra ela, e certamente, mais caro para homem.
Já passavam das vinte e uma horas, e ela ainda teria que trabalhar mais. O homem continuava chorando, e pela primeira vez naquela noite, desejou estar do lado de fora, congelando no frio da madrugada.
Será que você pode me dar uma abraço? – disse o senhor com muita dificuldade. Angélica deve ter feito uma expressão negativa, pois logo em seguida, o homem continuou:
- Estou morrendo, menina. Só um abraço.
Ela caminhou suavemente até ele, deixando pegadas do seu salto agulha no carpete. Ela o abraçou, e por um momento, sentiu-se com seu pai novamente. O homem a apertou fortemente, como uma mãe quando abraça seu filho antes do primeiro dia de aula. Ela entregou-se a esse sentimento, e quase derramou lagrimas junto com aquele desconhecido. As mãos do homem percorreram o seu corpo, e repousaram sob suas nádegas, apalpando-as. As mãos dela deslizaram sob as costas dele, repousando no abajur de porcelana que estava sob o criado mudo. Levantou o objeto e acertou em cheio naquela careca lustrosa. O corpo caiu no chão, já imóvel. Angélica apanhou a carteira, recheada de notas de cem, e colocou dentro da bolsa.
Eram quase dez da noite, e ela já tinha o dinheiro de uma noite toda de trabalho. Respirou aliviada. Chegaria em casa a tempo de contar uma história para sua filha dormir.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Sete



O sino da igreja bateu três vezes. Ela, como ultimamente andava com o sono muito leve, despertou. Deus uns tapas no travesseiro com a intenção de deixá-lo mais macio, mas sabia que não conseguiria dormir novamente. Contentou-se em admirar as cores do ser quarto perante a penumbra. O rosa adquirira outra tonalidade naquela circunstância. Caiu o olhar em uma de suas bonecas e de certa forma, achou graça da situação que as duas se encontravam – paradas, com os olhos arregalados, olhando para o vazio. Lembrou da história que ouvirá no colégio, e mesmo não sendo a boneca assassina da Xuxa, preferiu se precaver. Levantou-se e atirou a boneca dentro do guarda roupa, deu duas voltas na chave, e voltou para a cama.
A noite estava demasiadamente quente, mas não era a temperatura desagradável que a inquietava.
Rebeca tinha seis anos, em poucos dias faria sete. Considerava-se uma criança infeliz. Talvez, se ela fosse outra pessoa e a conhecesse no parquinho da praça, sentiria pena de si mesma. Crianças raramente têm essa noção de felicidade e tristeza, mas Rebeca tinha isso muito bem definido. Laura, sua mãe, morrerá há dois anos de câncer no pulmão. Ouviu uns comentários de que o tumor estava do tamanho de uma laranja, mas naquela idade, e com a imaginação que tinha, achou que a laranja havia deixado sua mãe doente. Não comeu mais laranja desde então. Valter, seu pai, se distanciou muito da filha nesse tempo, ele sempre fora um homem fraco. Os homens são sempre mais fracos que as mulheres. Durante esse tempo de luto, Rebeca não se deu o luxo de derramar uma lagrima pela perda da mãe, já que o pai derramava o suficiente para os dois. Há três meses, Cintia começou a freqüentar a casa da família. Rebeca a achava ridiculamente estúpida e feia demais para namorar com seu pai, mas não fez birra e tentou compreender a situação, afinal, ele tinha lá as suas necessidades, e pelo menos agora, ele voltara a fazer a barba regularmente e já não espetava as suas bochechas com aqueles pêlos duros e pinicantes. Tentou voltar a comporta-se como uma menina normal, mas as atenções estavam sempre voltadas a Cintia, e isso a magoava mais que tudo na vida. A garota não estava feliz com essa situação, e a felicidade que pairava sob aquela pequena casa de janelas azuis, não pairava sob a pequena criança de cabelos loiros. A cada dia que se passava, se dava conta que sua vida estava tomando um rumo totalmente diferente daquele que ela havia imaginado. Realmente, Rebeca era muito precoce.
Foi diante desses problemas e de tamanha angustia que até a faziam vomitar, que bolou um plano. Rebeca estava mais que decidida: Fugiria com o circo.
Naquela pequena cidade de um pouco mais de quinze mil habitantes, o costume de ir ao circo era quase um ritual. Uma vez a cada quatro meses, os caminhões coloridos despontavam no inicio da rua, e vinham alegrando e contagiando os olhos curiosos que admiravam a passeata. Sempre fora assim, desde a época que seu pai ainda era um garotinho gordo.
A lona já estava perdendo a sua forma mágica, pronta para se transformar em um grande pedaço de nada, jogado em cima do caminhão, e se não fosse naquela hora, a menina acreditava que não seria capaz de suportar mais quatros meses para ter uma nova chance.
Novamente levantou-se da cama, agora menos sonolenta, e a escuridão já não era um grande empecilho para seus olhos. Puxou uma pequena mala da Hello Kitty que escondera entre a cômoda e a penteadeira da Cinderela. Vestiu um dos seus vestidos mais coloridos e calçou um sapatinho vermelho que ela adorava, mas quase nunca usava porque lhe dava bolhas nos pés. Não importava-se com a dor que iria sentir, queria apenas causar uma boa impressão ao dono do circo. Dentro da mala colocou três peças de roupa, uma bússola que ganhara de seu avô, e uma foto 3 x 4 de sua mãe. O segundo maior medo de Rebeca era de um dia, quando se transformasse em mulher, não se lembrar mais do rosto de sua mãe, já que o cheiro ela já havia esquecido. O primeiro era morrer de câncer, como ela.
Desceu as escadas imaginando como seria essa sua nova vida. Poderia ser bailarina, palhaça, ou vender algodão doce. Só não toparia fazer nada que envolvesse altura, já que morria de medo de lugares altos.
Deixou um bilhete, escrito com uma letrinha redonda e caprichosa, colado na geladeira. Deu uma ultima olhada na casa, como se tivesse se despedindo dos móveis e das paredes que tanto sabiam de seus sentimentos, e saiu pela porta da frente, cortando a cortina de neblina que dava um ar quase mágico quando encontrava-se com a luz dos postes da rua.
Pela manhã, seu pai se deu conta do que havia acontecido, mas já era tarde. O circo já havia deixado a cidade.
Quatro meses mais tarde, os caminhões coloridos voltaram à região. Mas a menina não voltou com eles.
Rebeca já tinha sete anos, e finalmente pôde sentir o cheiro de sua mãe novamente.